Jornalista provocado por email anônimo alimenta a polêmica sobre o sistema de TV digital brasileiro
Ethevaldo Siqueira é jornalista especializado em Tecnologia da Informação e Comunicações e um dos maiores nomes na área no Brasil. É colunista do jornal "O Estado de São Paulo" desde 1967 e colaborador da revista Veja e da Rádio CBN, onde tem uma coluna diária chamada Mundo Digital.
No seu site http://www.ethevaldo.com.br/ o jornalista comenta uma mensagem de email que recebeu de um leitor identificado apenas pelo endereço eletrônico sac@outofafrica.com.br. Provocado pelas afirmações do leitor, que defende a adoção do sistema japonês para a TV digital brasileira,Ethevaldo faz suas considerações contundentes. Na verdade o padrão do SBTVD (Sistema brasileito de TV digital) não é exatamente igual ao padrão japonês. O SBTVD foi baseado no sistema japonês ISDB-T, mas utiliza a codificação de vídeo no padrão H.264/MPEG-4 AVC, enquanto que no Japão é utilizado o padrão MPEG-2. A utilização de codificação MPEG-4 faz com que o SBTVD seja melhor, sob o ponto de vista técnico, do que o japonês!
Eis aqui a mensagem que o jornalista Ethevaldo Siqueira recebeu do seu anônimo leitor:
Prezado Ethevaldo Siqueira,
Sou assinante do Estadão e apenas gostaria de expressar que discordo de suas opiniões sobre TV digital e rádio digital. Sou a favor e aprovo 100% a adoção do padrão ISDB pelo Brasil! Seu sinal pega muito bem, é robusto, a imagem HDTV é ótima, e breve teremos o Ginga! (1) Graças a Deus que o Brasil descartou o padrão europeu, pois estive na Europa e vi que eles não estão nem aí para HDTV, aliás o modelo deles nunca se compatibilizou com o nosso! Problema deles, pois no Brasil a população vai curtir bastante HDTV quando os custos baixarem, que não é de uma hora para outra, como você exige! (2) Já em termos de rádio digital, tudo indica o IBOC está sendo aperfeiçoado, (3) e qual o problema de o governo negociar os royalties com a Ibiquity? Se eles investirem aqui e gerarem empregos para produção nacional, qual o problema de ter financiamento do BNDES? Quando o BNDES emprestou bilhões para a européia Volkswagen, por que ninguém falou nada? (4) Que você é pessimista, não tem problemas, agora querer implantar o padrão europeu, ou privilegiar o sistema europeu de rádio aqui no Brasil, aí eu digo que você está fora da realidade mesmo...Para nosso rádio digital, o melhor seria o IBOC ou até o ISDB Digital Radio, já que faria sinergia com nosso padrão de TV ISDB! " (5)
A resposta publicada pelo jornalista Ethevaldo Siqueira foi a seguinte:
Prezado SAC Out of Africa (Parabéns pelo nome original),
Suponho tratar-se de pessoa que não quer idenficar-se. Respeito a opção. Respondo a cada item de sua mensagem:
(1) Agradeço sua mensagem e louvo o fato de ser assinante do Estadão. Começo por afirmar que o senhor está certo em todos os pontos do parágrafo acima. Acima de tudo: são direitos seus discordar, aprovar e ser 100% a favor da adoção do padrão ISDB pelo Brasil. Até aqui, no entanto, trata-se de opinião pessoal subjetiva. O que o senhor afirma a seguir é verdade tecnológica: "Seu sinal pega muito bem, é robusto, a imagem HDTV é ótima, e breve teremos o Ginga!" Mas eu lhe digo que nossa TV digital ainda é inteiramente experimental e elitista. É isso que temos de dizer, com todas as letras, à população -- que, em sua maioria esmagadora, não tem a menor idéia do que seja TV digital. É claro que, no futuro, será tudo isso que o senhor diz. Não sou pessimista, mas realista. A rigor, estou certo de que acredito muito mais na digitalização do que o senhor, em seu potencial futuro, na interatividade -- no longo prazo --, bem como na convergência com a internet e diversas formas de multimídia. Mas sem açodamento, sem pressa, sem demagogia.O que o mundo nos ensina, entretanto, senhor Out of Africa, é que só devemos inaugurar um sistema quando ele estiver realmente amadurecido, completo, funcionando, com mobilidade, conteúdo, Ginga completamente desenvolvido e interatividade perfeita. O resto é demagogia. Repito, o que temos é uma TV digital inteiramente experimental e elitista.
(2) Veja, senhor Out of Africa, o padrão ISDB é como uma Ferrari -- maravilhosa tecnologia, mas um pouco cara, adotada no mundo apenas pelo Japão, seu criador, e o Brasil. O sistema americano ATSC é adotado por 6 países. E o europeu DVB-T por mais de 120. Esses são os fatos. Se perguntar qual é a tecnologia mais sofisticada, mais ambiciosa, mais luxuosa (e, portanto, mais cara) eu lhe direi: é o ISDB. Exclusivamente por razões profissionais, comprei, com sacrifício, um televisor digital, full HD 1080p, e sei que a tecnologia é ótima. Gastei mais de R$ 7.500,00, um preço que só a classe A pode pagar, para ter High Definition. Com pouquíssimos programas disponíveis. Sem outros features. Talvez mais do que o senhor, eu tenho visitado o Japão, os Estados Unidos e a Europa (todas essas regiões mais de uma dúzia de vezes) a trabalho, exclusivamente para conhecer os sistemas de TV e rádio digital desses países e continentes. Isso simplesmente quer dizer que não ignoro o que o senhor afirma. Mesmo assim, nunca defendi os padrões digitais europeus, como o senhor, equivocadamente, afirma. Concordo em que a população brasileira vai curtir bastante HDTV, quando os custos baixarem, que não é de uma hora para outra, digamos, daqui a 15 anos, desde que o poder aquisitivo de sua população seja bem maior do que hoje. Eu não exijo que os preços baixem. Quem exige isso é o consumidor comum, o cidadão que, até aqui, não sabe bem o que é TV digital.. A população brasileira tem baixo poder aquisitivo. Isso é um fato. A penetração da TV digital na Europa é ainda muito baixa. Nos Estados Unidos também. No Japão, ainda mais baixa. A grande exceção é a Finlândia, primeiro país do mundo onde 100% dos televisores recebem TV digital. É claro que no futuro, tudo será maravilhoso. O senhor se lembra quando o celular foi introduzido aqui em 1990? Começou lentamente, em Brasília e no Rio. Era analógico, como no resto do mundo, caro, elitista, volumoso, com bateria apenas para 30 minutos de conversação. Em 1993, começou em São Paulo. Hoje há mais de 130 milhões de assinantes. Isso é universalização. Mas a tecnologia não era experimental, ainda não desenvolvida como o rádio digital IBOC ou a TV digital padrão nipo-brasileiro, sem Ginga, sem set-top boxes disponíveis, sem interatividade, com raros conteúdos de High Definition e para celular..
(3) Se está sendo aperfeiçoado, a lógica nos diz que ainda tem problemas e insuficiências e, portanto, ainda não é hora de adotá-lo. O IBOC tem problemas sérios. Eu fiz teste em meu carro ? tanto para AM quanto FM, durante meses, com um receptor importado, pelo qual paguei US$ 300 (trezentos dólares), de boa qualidade. Não permite rádio portátil, consome as baterias em pouquíssimo tempo. Tem atraso de quase 8 segundos entre os sinais analógico e digital. Quando forem sanados esses problemas, eu aplaudirei a digitalização do rádio. Ouvi recentemente a ministra das Comunicações da Finlândia e publiquei suas declarações, afirmando que o rádio digital ainda não tem solução aceitável no mundo. Outra vez nego a besteira de que eu defenda padrões europeus. Não há receptores baratos no mundo. Os mais acessíveis custam US$ 100. Convença a população brasileira a pagar esse preço (sem impostos, quando houver escala, quando a tecnologia for convincente...) para ouvir rádio, sr. Out of Africa.
(4) Não se trata de negociação de royalties, mas de ajuda a uma empresa que está em dificuldade, oferecendo recursos do BNDES. E se a Ibiquity falir? Se a empresa quiser vir ao Brasil, aqui instalar-se, investir milhões aqui, criar empregos, terminar o desenvolvimento do IBOC, fazê-lo funcionar, tudo bem. Nunca defendi financiamento do BNDES para a Volks, nem para nenhuma empresa estrangeira -- especialmente nas condições de risco da Ibiquity.
(5) Senhor Out of Africa, não sou pessimista, não quero implantar o padrão europeu ou privilegiar o rádio digital europeu, não estou fora da realidade. O senhor está fugindo do assunto. Discuta tecnologia, sem distorção. Sem pressupostos maliciosos. Não me acuse de nada. Focalize sua discussão nos argumentos que lhe dei. Ninguém acredita mais na digitalização do que eu, repito. Mas com seriedade, em favor do Brasil e de sua população, sem lobbies, sem interesses pessoais, político-partidários ou econômicos. Se quiser saber minha preferência tecnológica, eu lhe revelo, com todo orgulho: gostaria que o Brasil desenvolvesse sua própria tecnologia para TV digital e trabalhasse muito mais em IPTV (TV sobre protocolo IP), aproveitando-se do que o mundo tem de melhor.
Se quiser identificar-se e discutir publicamente estes e outros temas, eu terei imenso prazer. Se não, um grande abraço.
Fonte: Ethevaldo Siqueira



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